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(¯`·._.·[Phoenix Ocean]·._.·´¯)January 08 Espero por ti num voo angelicalDanço por entre as gotas de chuva, embrulhado nas mantas da minha existência e bebo da realidade quente junto ao calor de uma lareira gelada sem ti. Dispo-me de preconceitos e deixo-me levar pela batida do meu coração murcho e seco. E dou por mim mergulhado nos lençóis ardentes da minha pele desértica e vazia, por preencher de letras e sonhos teus. Coloco as minhas mãos na cruz do esquecimento e do perdão, esquecimento porque apenas nos lembramos dela quando dói e do perdão porque me entreguei a ela para perdoar. Meus pés vacilam e não querem obedecer a esta mente doente e perturbada. São o reflexo do meu Eu. Têm medo de caminhar neste labirinto irreal e de se arrastar por paredes e tectos musgosos e movediços. Mas não sabem eles que é necessário percorrer este caminho para sair daqui, para me libertar destes corpos disformes que se colam ao meu e me tentam manter cativo. São restos de seres do passado, que não meu, que insistem em sugar a minha energia e força vital e que gemem de prazer para me ludibriar, fazendo me crer que é a mim que querem e desejam, mas nunca é. Nunca sou eu o fruto de desejo, apenas querem de mim aquilo que pensam não ter, mas têm. Preferimos sempre procurar fora o que temos cá dentro e procuramos cá dentro o que realmente não temos. Andamos totalmente ao contrário. Como em tudo na nossa existência. A luz fica intermitente e não consigo vislumbrar o caminho com a intensidade desejada. E sinto-me perdido. Encosto-me a uma parede destas, fria, húmida, e sinto umas mãos ardentes, varias mãos, a acariciar o meu corpo. Acariciam as minhas pernas semi-abertas, o meu peito flácido, o meu pescoço dorido e o meu rosto peludo. A minha barba contrasta com estas mãos macias e finas. Elas prendem-me, arrepiam-me e deixo. Fico-me por aqui. Acabo mesmo por esquecer quem sou e o que desejo para mim. Deixo-me levar por esta fantasia de desejos mundanos, até ao momento em que me vejo fundir com a parede e me sinto tornar-me num desses corpos marmoricos vampíricos sem forma definida. Então luto, tento me soltar. Não quero a sua realidade, não quero ficar à espera de mais um ser que passe por aqui, quero ser livre destas paredes e caminhar seguindo algum caminho, mesmo que não o certo nem o meu. Aqui não quero estar e também não sei se alguma vez passarás por aqui, por isso o melhor é não ficar. E, também, se ficar corro o risco de me fundir nestas entranhas macabras e não irias ser capaz de me distinguir por entre os demais, não acredito que fosses capaz de distinguir as minhas mãos. Mãos que desejam as tuas e que anseiam pela tua pele macia e pelo teu vigor. Espero por ti num voo angelical ao som da brisa suave de um toque de piano. Mas tardas em me encontrar. Provavelmente vês-me com os olhos do corpo e pela luz do teu passado e não reparas que sou diferente sem deixar de ser igual. December 28 IndefinidoNão existe aqui ninguém. Sou uma mensagem programada. Um reflexo condicionado de uma aparente existência. Sou um nada irreal que vagueia por entre cadáveres animados com o sopro da vida. Arrasto-me em membranas celulares e transmuto por entre fontes energéticas em busca da minha pele e de emoções que dizem termos de viver. Não sou um cadáver também, se o sou não o sinto. Sou uma película semitransparente quase que aderente. Algo que se esconde numa sombra por entre um raio de sol reflectido numa rosa. Sou um camaleão arco-irico de pupilas saltitantes. Que busca algo sem nunca encontrar ou sem nunca sentir que encontrou o que busca. Por vezes encontro miragens neste deserto de vida, mas não passam disso mesmo… miragens. Quando as tento agarrar fogem por entre os dedos, como a areia na praia das minhas lembranças. Ainda tentei correr atrás delas, na ilusão que, para além de uma miragem, fossem também a reflexão de uma realidade, mas as minhas forças não permitiram ir tão longe, ao ponto de verificar se tal é ou não verdade. E deixo-me cair sobre os meus joelhos e fico aqui prostrado à espera de recuperar as minhas forças. Olho em volta em busca de uma esperança, de algo que aqueça o ser e me dê pistas sobre a minha existência. Existe a minha volta vários fragmentos de espelho, reluzentes, brilham com toda a intensidade, quase me cegando. Não sei que fazem aqui, nem a sua razão de existir, neste deserto de vida, tão seco e quente. Apanho do chão um desses fragmentos de espelho e espreito para o seu interior, nem sei muito bem o que esperava encontrar dentro dele, mas olho-o. Vejo reflectida nele a imagem de uma criança sorridente, comparo-a com as minhas mãos, que então seguram no caco esquecido, e não vejo nelas nenhum registo de juventude. Vejo pó, cinzas, solo árido gravado em meus tecidos. Células mortas e gastas, marcas de um tempo que passou e não me avisou que passava. Quem sou? Quem fui? Que raio faço aqui? Eu e nós aquiSou matéria disforme, colcha de retalhos nesta realidade cibernética. Fria, gelada, sem emotividade. Somos o que os outros querem que sejamos, num conjunto de sílabas e união de palavras vagas. Palavras que muitas vezes nem dizem nada. São apenas reflexo de um momento. Mas nem sempre de um estado de espírito. Partilha-se ideias, vivências e estilhaços de emoções. Mas nada que substitua a dita realidade, que mesmo sendo imperfeita e um reflexo da verdadeira, sempre é mais concreta e definida que esta. Cada vez tenho mais consciência da importância da nossa matéria, mas quando em conjunto com os nossos ideais, sonhos, desejos e características únicas. Pois nem sempre sabemos nos exprimir do melhor modo e a emoção que damos às palavras não se sentem. Não da maneira como queremos muitas das vezes. Para além disso nem sempre reagimos da maneira como é esperada, mas isso é normal. Da mesma maneira que a nossa mensagem pode não ser interpretada da maneira mais próxima da realidade, também a mensagem nem sempre nos chega no seu melhor estado e acabamos por reagir de maneira errada ao estímulo aparente. É o mesmo que pormos o dedo numa chama e o nosso cérebro pensar que o que sentimos não provoca dor e estamos a derreter. Nada é mais valioso que um olhar, uma expressão, um gesto, um som. Nada nesta existência poderá substituir isso, absolutamente nada. RealidadesApetece-me desaparecer, vestir-me de invisibilidades e deixar de existir, aqui e agora. Seria bom flutuar por entre as brumas de oxigénio que alimentam a nossa atmosfera e fazer parte de todos e de ninguém. Abrir a minha pele e libertar a minha alma para uma existência mais pacífica, mais verdadeira, menos carnal. Quero ser fogo, mas também água. Chama ardente sustentada nas ondas do teu ser. Formar-me na tua pele e deixar-me assim ficar, enquanto a realidade passa e nos não. Abrir a minha pele, deixar as minhas asas saírem e voar contigo nos meus braços. Deixar esta existência de Ícaro e voltar aos céus, erguer-me deste deserto árido que me consome e derrete o corpo. Sinto-me fundir com o subsolo e o que desejo é voar em liberdade, na frescura do teu ser. Não quero cair na banalidade existencial que esta natureza, considerada humana, vive. Fecho os olhos. Sinto o peito levantar. Os braços pendem para baixo e as minhas pernas começam a soltar-se do solo. Sinto a tua mão na minha pele… a invadir o meu ser…atravessas a minha carne. Sinto dor. A dor do renascimento. A carne começa a rasgar do ponto onde entraste e não tarda o meu corpo mortal abre-se e saio de mim. O teu corpo astral junta-se ao meu e nossos corpos de luz fundem-se numa dança cósmica de prazeres extra-sensoriais. A fusão da dor suavizada pela luz do conhecimento e da realidade metafísica embriaga-me e faz-me orbitar sem noção de tempo e espaço. Abro os olhos e vejo-me dividido, caído nesta vala comum. Misturado com outros corpos arfantes e desventrados de sentimentos puros. Pensei arrastar-me para fora daqui… mas preferi fechar os olhos e esperar que ainda estivesses comigo no outro plano. Mas já não estavas. Caí novamente no solo e minhas asas queimaram e derreteram. Voltei para este lugar seco, ardente, doloroso. Lugar cavernoso, esgravatado por esta minha consciência maldita que teima em querer que eu regresse. Sim tenho consciência, uma característica maldita que não me deixar existir de forma animal como a restante raça humana. Que não me permite viver a carne. Carne que putrifica e se vai com o pó dos tempos. Mas isso torna-se numa antítese, pois esta é a forma de existir mais fácil e, aparentemente, menos dolorosa e fugaz. Com isto talvez desaparecesse mais rápido. Mas não. Sinto-me cativo nas minhas próprias paredes celulares a aguardar pela tua mão, luz, encanto. Não me misturo. Não pertenço aqui. Mas, como sempre, também não sei onde é o meu lugar. Carne? Há muita lá fora, a derreter no deserto desta existência. Ainda pensei render-me. Mas não me adaptei. Não me adapto. Mas sou julgado como os demais. Valerá a pena? November 21 DeliriusQueria caminhar de mão dada com o destino e sorrir para a vida. Sorrir de prazer para o pôr-do-sol contigo nos meus braços e saber que mais um dia passou e o teu amor foi meu. Sou viciado no teu amor e quero me manter assim para toda a eternidade. Quero injectar na minha corrente sanguínea pequenas doses de ti e snifar com frequência o aroma da tua pele e transcender-me contigo. Não preciso de procurar químicos e alocinogenicos pois tu és tudo isso e muito mais. És a minha fonte de prazer física e metafísica. És tudo aquilo que tenho esperado ao longo destes anos, tu e só tu faz sentido em mim. Minha pele clama pela tua. Minhas pupilas perdem a cor quando não te vêem. Meus tímpanos ensurdecem quando não te ouvem. E todos os meus sentidos morrem para a vida quando não te tenho aqui, à minha volta, nos meus braços, ou em fusão comigo. November 08 No parque das minhas lembranças...Com um sorriso de criança passeio os meus dedos pelo teu corpo, faço dos teus contornos o meu parque de diversões e brinco com os teus lábios nos meus. Faço sarrabiscos coloridos de amor, com a minha língua, nas brancas paginas da tua pele e, nos teus braços, sou pequenino, pequenino em tamanho, mas gigante em sonhos e fantasias. Quando me abraças liberto-me para o mundo, ganho asas e percorro o tempo e o espaço, sou feliz. Deixas-me voar enroscado no teu corpo, deixas-me sonhar no teu colo, deixas-me voltar a ser menino em ti. Um menino sedento do sabor da tua pele, do néctar dos teus lábios, sedento do prazer que me dás, sedento de ti. Deixo-me levitar pelo teu corpo e fundir contigo numa busca incessante de desejos mundanos mesclados com desejos etéreos… somos seres terrenos que procuram no corpo um do outro o céu, o paraíso anunciado. Aqui não existe árvore do pecado, aqui não existe serpente, aqui existes tu e eu, numa dança cósmica. Elevamo-nos acima dos astros quando as nossas bocas se fundem, elevamo-nos às altas esferas quando a nossa pele se toca e o nosso calor se confunde, perdemos a nossa individualidade quando nos amamos. Sou teu e tu de mim. Enquanto não vens para mim, construo castelos de fantasia com a areia dos tempos que vão passando e vou refrescando o meu corpo nas ondas do mar das minhas saudades. Deixo-me flutuar com o corpo ao sol nesse mar imenso e fico assim suspenso à espera de uma sinal teu. Brinco com as estrelas do céu que enchem este nosso mundo…este nosso mundo, tão meu e teu, onde apenas nos dois existimos. ... October 13 EdenEscondi-me na penumbra de uma sombra à espera de te ver passar. Escondi-me de tal modo que me perdi de mim mesmo… e agora não sei onde estou… não me encontro. Ainda chamei por ti, podia ser que tu me descobrisses, mas foi em vão. Aqui continuei… Só… na escuridão de mim. Decidi arrastar-me por um caminho fechado de sentimentos e cor e, sem te encontrar alguma vez, prostrei-me cansado no chão. Chorei… chorei durante dias e as minhas lágrimas viraram pó, seco e antigo, marcas do tempo que em mim não estiveste. Ao ver tanta dor um anjo veio em meu auxílio e levou-me até à escada da vida, um labirinto de degraus e patamares, onde pensamos caminhar com um fim, mas nunca saímos do mesmo sítio. Assim como veio…. Se foi. E mais uma vez me vi sozinho. De tanto caminhar sentei-me, cansado de não saber se subia ou descia, cansado de tentar te encontrar, cansado de ver o teu olhar brilhar na minha mente. Olhar esse que me mantêm cativo, olhar esse que me embriaga o ser, olhar esse que me cegou os sentidos, olhar esse que me apaixonou. Estava tão cansado que acabei por adormecer. O céu encheu-se de pássaros alegres e periclitantes… o chão de flores perfumadas que emitiam o teu perfume, e tudo parecia um paraíso de ti. Meu AnjoDelicio-me com as memórias da tua boca na minha… sinto a saliva nos meus lábios e a tua língua a dançar com a minha. O meu rosto reflectido na cor dos teus olhos doces e brilhantes parece ganhar contornos mais sedutores e fazes de mim um deus de atributos invejáveis. Viajo nas tuas asas de desejos mundanos e caminho de mãos dadas com o pecado do teu corpo ardente em minha essência carnal pecaminosa. Trinco o teu corpo à procura de soltar de ti a raiva que sinto em mim, a raiva de sermos um do outro e de nos fundirmos por baixo dos trapos nidificados que me servem de leito. Quero-te em toda a tua essência e quero que me queiras tal qual como eu sou. Na minha mais dura essência, como ser animal e carnal que sou. Quero que me purifiques com a tua pele e com o teu toque angelical… quero me sentir envolvido pelas tuas penas níveas e aconchegantes. Anda… agarra-me… leva-me para ti. Faz-me caminhar para o teu interior e deixa-te entrar dentro da minha pele que se rasga ao sentir que aqui estás. Vê como o meu corpo se rompe com a passagem dos teus dedos suaves… fazes de mim um vulcão potencialmente eruptivo e todo o meu ser se expõe à tua passagem. Sinto o meu corpo levitar e mergulhar em ti. Enrosco-me nos teus contornos e deixo-me envolver, aconchego-me no teu intimo e os teus braços envolvem-me numa corrente de sonho e fantasia. Sinto-me orbitar no mar de pele tua…As minhas pupilas saltitam de corpo em corpo, corpos esses que se dispersam nas avenidas da vida, como sonhos de pecados ardentes que nas minhas mãos se materializam. Mas não passam disso mesmo… sonhos. Embalagens belas de contornos suaves e agradáveis a qualquer vista mortal, e às vezes não sei se imortal também, pois tais formas apelativas são de prender uma qualquer pupila, mesmo que por breves instantes. Instante do tamanho de algo efémero, instantes etéreos… em que nos deixamos seduzir pela beleza. Difícil é resistir a esses contornos que nos arrastam numa maré de desejo, nos fazem viajar por constelações de trapos e nos levam a mergulhar na via láctea dos nossos corpos escaldantes. Percorro estas avenidas, deambulando como um vadio, sem porto de abrigo e sem refeição quando a fome desperta. Vivo do oxigénio conspurcado pelos meus pensamentos e fantasias tortuosas. Encho de recortes de outras vidas o álbum da minha existência perturbada e acrescento música de vozes a esquecer na prateleira das minhas memórias rasgadas em filamentos. Corto o teu corpo em fragmentos e sobreponho-os a outros corpo para me iludir e sonhar que eles são tu. E deixo que os meus sentidos se iludam com o cheiro que não é teu, com o toque que não é teu, com o respirar descompassado que também não é teu. Entro no labirinto da minha mente enlouquecida e deixo-me levar pelo tapete rolante de areia movediça que me arrasta numa montanha russa de corpos desnudos. Sinto o seu ritmo, o seu movimento, o seu calor e o seu respirar e não ofereço resistência à minha passagem. Deixo-me ir e de sentidos fechados revejo-te em cada um. Vou me envolvendo neste movimento e sinto-me orbitar no mar de pele tua… sinto a vaga das tuas mãos percorrer o meu corpo e delicio-me com a sensação de prazer que me transmites. Quero-te mais, muito mais, por isso vou caindo cada vez mais neste precipício dantesco, onde me aproximo mais da sensação de ti. Até que algum corpo prenuncie algo e me faça aterrar no solo árido da realidade gélida da tua ausência. Sinto-me prostrado neste chão, sozinho e desnudo. Olho em volta e nada. Um deserto… um vácuo. Terra de ninguém em meu interior. Sinto em minhas mãos o pó do tempo que se infiltra nas minhas veias e o meu corpo a apodrecer. Tento rastejar em busca de uma porta para sair deste limbo…mas nada. Nada de nada. Nem cor, nem sonho, nem vida. Vou perdendo mobilidade conforme o sangue vai secando e as lágrimas suspensas em meus olhos já não caiem. Quanto mais tento me arrastar, mais me confundo com o solo seco e árido… vou me transformando em cinzas da fogueira que em tempos fui. Preciso de ti para me atear novamente e regenerar. Sente o meu respirar e vem até mim. Vem me resgatar deste limbo… Vem. Sou teu.
October 05 Eu...aqui e agora.Abre-te céu e deixa-me ver para além de ti. Estou cansado de viver em morte suspensa. Queria que esta tinta ganhasse vida e me libertasse… que me desse asas e me fizesse regressar à minha verdadeira condição existencial. Sou corpo e alma… existo aqui e mais além. Mas queria ser um só. Ser uno e perfeito na sua etérea existência. Mas sinto-me cativo nesta forma de ser complexa que ninguém, por mais que tente, consegue explicar. Não existem teorias nem conceitos verdadeiros que expliquem o porquê de estarmos aqui, apesar de nos contentarmos com algumas, elas não passam de meras ideias escritas por alguns de nós para nos convencer e para nos fazer sentir que encontramos respostas… mas tudo é falso. É tudo tão verdadeiro como são eternas as minhas células, como é eterno o sorriso de uma criança (riso esse que tem a duração da sua inocência). Queria voar pelos céus e caminhar sobre o mar que me cativa. Sentir na planta dos meus pés a frescura da realidade e mergulhar nela com todo o desejo de ser. Sentir no meu corpo a sua força, a sua vida, a sua raiva e saber que lhe pertenço. Estou cansado de me sentir como um insecto preso numa caixa decorativa. Não pertenço neste mundo de loucos. Não tenho medo de morrer nesta existência e me transmorfar naquele que sou realmente e me libertar. Rasgar esta pele mortal e atingir a imortalidade dos sentidos. Levanto as minhas mãos em direcção à lua e peço-lhe compaixão. Peço-lhe de homem para mulher pela minha libertação. Quero ser livre no amor e na vida. Rasgo a minha pele e abro as minhas asas metafísicas e voo. Voo por entre estrelas e constelações de prazer. Sinto na palma das minhas mãos a sexualidade dos humanos e liberto-me para a vida eterna. Deixo que as ondas celestiais sejam o meu leito e flutuo por entre sonhos e fantasias de carne e osso e sorrio. Sorrio com malícia. Fecho os olhos por instantes em busca de meus semelhantes e apenas vejo luz. Esta luz que me encadeia. Caminho para ela… sinto a sua energia, a sua vitalidade. A sua voz doce e sedutora chama por mim, embriaga o meu ser e faz-me desejar-lhe. Não sei quem é. Não tem corpo definido. Mas existe. Pois sinto e se tudo o que sentimos é real… também o é. Irradia do meu corpo energia. Sinto todos os meus poros a abrirem-se e fico estático a flutuar suspenso neste vácuo rodeado pela sua luz, energia, calor. De sorriso em meus lábios carnudos e braços pendidos assim eu fico. Sentindo-me fundir com a luz que me envolve. Queria chamar por alguém ou por algo. Mas não há corpo, não há matéria definida. E mesmo eu começo a deixar de ser em mim e a passar a ser em luz. Vozes ecoam no espaço sideral, soam a doces melodias de embalar que embriagam os meus sentidos, sentidos esses que começam a deixar de existir. Desejo uma maior fusão e sinto descargas eléctricas nesta forma indefinida em que me tornei. Sinto néctar em meus lábios e enlouqueço. Sinto o orvalho que se liberta das minhas células e aumenta o meu calor. Sinto-me arder, entrar em erupção. Sou um vulcão activo e todo eu experimento esta sensação, uma mistura de perda de sentidos e dispersão e ao mesmo tempo de união e fusão. Envolvemonos numa dança cósmica. Eu e luz um só. Eu e luz em comum existência. Será que vivo? Será que sonho? Mais uma vez... não sei.
August 19 inicioEstava uma daquelas noites de Inverno terríveis em que as únicas pessoas que saem à rua são as que por alguma razão esqueceram algo. Ele estava à janela, do seu apartamento situado no 4º andar de um prédio da rua de Santa Catarina, com a cabeça tombada sobre o vidro. Olhava para as grossas gotas de chuva com uma letargia tamanha, quem o visse pensaria que estaria a pensar em algo, mas não estava. Estava apenas quieto vazio de pensamentos olhando para a chuva, sem a ver. Lá em baixo ainda se conseguia ouvir um ou outro barulho de pés apressados a pisar algumas das poças de água. Na sua aparelhagem tocava “Clarinet Concerto In A Major K 622 Adagio” de Mozart. Neste últimos dias ouvia vezes sem conta esta melodia e ficava assim quieto a um canto a espera pela passagem do tempo. Não estava cansado da vida, mas estava só, no mundo e na vida. Quando o despertador do seu telemóvel topo de gama tocava eram horas de se ir deitar. E obedientemente ia se preparar para dormir. Mudava a música na aparelhagem para Oboe Quartet In F Major K 370 Adagio também de Mozart e ia até ao quarto de banho. Tomava banho, vestia o roupão, lavava metodicamente os dentes, punha o creme de noite e ia até ao quarto de muda de roupa, vestia o pijama e colocava o roupão num cabide no sítio do costume. Desligava a aparelhagem, que já tocava Violin Concerto No 3 In G Major K 216 Rondeau Allegro e ia se deitar. February 18 Eu - ApresentaçãoNa podridão de um suplício me sento e não encontro o meu lugar. Procuro na barca da vida o meu caminho, mas não faço a mínima ideia que rua percorrer. Esta dor que pensava ser só minha, mas que também é tua, transforma-se num ácido que corrói as minhas entranhas, arrasa com a minha pele e me expõe à triste realidade, a realidade em que nada sou. Li nos lábios do meu carcereiro palavras doces de conforto, mas rapidamente descobri que fora ilusão deste meu cérebro cansado e oprimido. Não eram de conforto as suas palavras, mas de gozo e ironia. Brincou com a minha inocência e com a minha credibilidade na vida. Pensava que realmente a vida era possível e por isso deixei-me ir, mas como alguém disse um dia: tem cuidado com o que desejas. Pois, eu não tive e desejei tudo aquilo que pensava ter direito… Dancei em palácios de fantasia, caminhei em florestas encantadas, bebi água de todas as fontes e aqui continuo sentado, deixando que a tinta desta minha caneta seja o meu sangue e viva por mim. Vive tinta, deixa que as palavras que desenho se tornem em realidade e tu vivas sonhos despertos. Deixa que está vida inútil desperte realidades esquecidas na mente de quem as lê. Sou um capricho dos Deuses, sou fruto de uma existência falhada e idiota e por alguma razão que desconheço estou aqui, errante, desesperadamente sonhador e vazio. Vazio de sentimentos e de vida. Correm em minhas veias o sal do mar, o pó árido do deserto, as cinzas frias de uma fogueira. Sou o sol que ninguém venera, sou a lua que não apaixona e a brasa que não aquece. Este sou eu, um ser horrendo, saído das profundezas de um oceano por explorar, cheio de nada que gostava de ser como o Pinoquio que no fim se tornou num menino. |
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